Björk - Fossora
Oct 3, 2022
90
Com um retorno às suas raízes, em 'Fossora', Björk mostra que mesmo estando a cerca de 30 anos na indústria fonográfica, ela ainda consegue entregar com êxito sons exóticos cheios de criatividade, o 10° album de estúdio de Björk só solidifica ainda mais o poder da genialidade da artista e sua extensa diversidade, trazendo mais uma perspectiva inédita de suas ideias de forma fresca e saborosa, em um album de reflexão cheio de sabedoria em seus versos poéticos.

"A space in your voice shows the scale of your compassion
The tone of your voice reveals the space you give up there"

- Trecho da faixa Her Mother's House

O período do ano de 2020 não foi fácil pra ninguém, principalmente no caso que tivemos que nos distanciar de diversos entes queridos e de tudo aquilo que estávamos acostumados em nosso dia a dia, para Björk não foi muito diferente, e a mesma se viu retornando a sua terra natal na Islândia, onde por fim passou vários meses reclusa em seu isolamento, e foi nesse momento que a artista passou a refletir sobre sua vida familiar desde sua infância até os momentos atuais, reflexões sobre perdas recentes como de sua mãe passaram pela sua mente, e isso também a fez refletir sobre a si mesma como mãe, sobre o legado que ela carrega consigo, é nesse momento de redescoberta espiritual da artista que foi concebida a ideia do 'Fossora'.

"Her fossorial claw
Digs downwards
Dissolves old pain, dug down to rot
Decomposes debris
Degrades
Sorrows, hair and hooves"

- Trecho da faixa Fossora

Como uma escavadora a qual já diz em seu título, Björk expande suas raízes ancestrais sobre o solo, usando de forma inteligente uma analogia aos fungos, onde a artista descreve as suas raízes familiares e sentimentais através de sistemas orgânicos que se proliferam pelo solo, que por fim vai se espalhando e enraizando cada vez mais fundo, Björk nos trás letras poéticas que se comunicam de maneira honesta com o ouvinte, explorando assuntos como o distanciamento, solidão, maternidade, lembranças e reflexão, 'Fossora' se mostra tão complexo quanto uma flora de cogumelos, e e nos entrega uma grande mistura de emoções que de certa forma se entrelaçam de forma surpreendentemente coesa, e se culmina em uma felicidade esperançosa no fim do túnel, o album vai fundo nos pensamentos de Björk e nós conseguimos ver singelas facetas da artista que dançam juntas em harmonia, o desenvolvimento lírico é belíssimo e impactante, como sempre ela nos dá um show de sentimentos profundos, que se encravam em na nossas mentes através de uma poesia completa e sublime aos nossos ouvidos.

"Fungal cities subterranean
Curve the forest floor
We walk on this sunken mystery
Trunks bursting through
The moss from our love"

- Trecho da faixa Fungal City

Sendo uma obra que a própria cantora considera como um "album da Islândia", essas raízes que Björk impõe vão além e nos trazem uma experiência sonora bastante volátil e psicodélica, e assim se espalhando alegremente como os cogumelos, Björk resolveu juntar esse conceito com a ideia de corais e acordes típicos de sua terra natal, além de trazer de forma muito bem acertada da atmosfera folclórica de sua cultura, já que o album constantemente em sua sonoridade nos trás aquela vibe de fantasia como se estivéssemos explorando um povoado de elfos ocultos sobre os cogumelos, isso sem dúvidas é uma forma bastante criativa e genuína de fundir seus conceitos líricos e emocionais com a sonoridade do disco, assim expandindo tal conexão em horizontes mais abrangentes que se relacionam de forma harmoniosa com a proposta de Björk, sem sombra de dúvidas um dos albuns mais ricos em camadas da artista, uma verdadeira colônia de cogumelos que se prolifera pelo solo, em diferentes tamanhos e cores.

"I bow to all that you've given me
Thank you for staying while we learn
To find our resonance where we do connect
To find our resonance where we do connect"

- Trecho da faixa Atopos

Contando com contribuições do cantor americano Serpentwithfeet, de ambos filhos de Björk, Sindri e Ísadora, da dupla de dança indonésia Gabber Modus Operandi e do sexteto de clarinete baixo Murmuri, o album da artista soa o mais exótico e profundo possível, fazendo uma mescla de sons suaves folclóricos com batidas ríspidas e agitadas, Björk mais uma vez impressiona com sua capacidade de se reinventar artisticamente e trazer novos horizontes para sua música, o instrumental não é muito acessível e é bastante desafiador, mas no fim após me adequar e entender a fundo tudo aquilo que abrange a ideia da artista, sua grandiosidade se mostrou bastante visível para mim, Björk sempre deu ênfase em trazer essa espécie de colisão entre o suave e o agitado em seu disco, algo diferente e em diversos formatos assim como os cogumelos, e na minha visão ela executa tal ideia com bastante primor, seu som é imprevisível e visceral, cheio de camadas e belo em seus detalhes, o sentimento consegue ser esculpido em muitas de suas faixas através dele, e o trabalho soa extremamente coeso mesmo sendo um dos albuns mais colaborativos da artista, uma produção digna de aplausos.

"She had a idiosyncratic sense of rhythm
Dyslexia the ultimate freeform
She invents words and adds syllables
Handwriting language all her own"

- Trecho da faixa Ancestress

Sinceridade em transcrever seu sentimento pela voz Björk sempre tem de sobra, sua performance vocal soa tão viva quanto nunca, mesmo após tantos anos de carreira, a artista não fraqueja com sua voz e sua veracidade emocional é bastante forte, Björk sabe como nos atingir com sua voz, ela sabe como se expressar, e isso somado a sua interpretação única, trás aquele peso individual exclusivo da artista. Acho que a única coisa que não me agradou muito no album, seria a voz da artista ser supostamente mais previsível nesse album, e seguir um estilo de desenvolvimento bastante similar para boa parte das faixas, o que quebra um pouco aquela imprevisibilidade vista nos albuns anteriores, apesar que sua veracidade se mantenha completamente intacta.

Cheia de participações inusitadas, Björk pareceu mais convidativa nesse album, o que foi bom de certa forma já que o album ainda sim se manteve dentro da proposta em todos sentidos de seu início ao fim, e o que eu gostaria de destacar é que mesmo que seja participações singelas, elas tem o seu impacto dentro do album, e dão esse ar de coletividade para a colônia de Björk, é um detalhe inusitado que acho interessante e gostaria de ter abordar.

Björk em 'Fossora' mostra a sua força como rainha elfica dos cogumelos, um album que sabe escavar profundamente as raízes da vida da artista, e trás uma reflexão profunda sobre sua vida, sobre a sua relação com a sua falecida mãe, sobre o seu próprio legado com a maternidade, e Björk mostra que a pandemia foi um momento muito importante para sua saúde mental e serviu como uma temporada de retiro espiritual para a mesma, com a sua própria fauna exótica, Björk entrega um dos discos mais emblemáticos no meio alternativo de 2022.

Atopos ft. Kasimyn: 7.2
Ovule: 9.5
Mycelia: N/A
Sorrowful Soil: 6.8
Ancestress ft. Sindri Eldon: 9.2
Fagurt Er Í Fjörðum: N/A
Victimhood: 10.0
Allow ft. Emilie Nicolas: 10.0
Fungal City ft. Serpentwithfeet: 9.0
Trölla-Gabba ft. Kasimyn: N/A
Freefall: 7.5
Fossora ft. Kasimyn: 10.0
Her Mother's House ft. Ísadora Bjarkardóttir Barney: 8.8

Média das Faixas Avulsas: 88

Interlúdios / Faixas Instrumentais: 87

Coesão / Aspectos Técnicos: 95

NOTA FINAL: 90

3 Comments
3mo
@Mixinha Usei os elfos porque fazem parte da cultura da Islândia.
Sign in to comment.
More Reviews by JonasFernandes
Björk - Utopia
85
Oct 19, 2021
Björk - Vulnicura
94
Sep 1, 2021
Björk - Biophilia
90
Oct 13, 2021
Björk - Volta
81
May 26, 2021
Björk - Medúlla
92
Oct 13, 2021
Björk - Vespertine
97
May 5, 2021
Advertisement
Rate and review albums along with the AOTY community. Create an account today.
Become a Donor
Donor badge, no ads + more benefits.
More Reviews
jxshmccabe
BradTasteMusic
Calupmullings
charcoal
MattsReviews
wyrihu
Maqtheus
Davibitt1234
Benji55
Doofy
CamLikesMusic
mike_drop
Kodan
LukasLima
Moi_stee

January Playlist
AOTY Discord