[REVISITA: aniversário de 10 anos]
Esta é a magnum opus de Beyoncé não por acaso, já que foi o trabalho responsável por destacar sua capacidade de reinvenção e a reposicionar como alguém mais que "apenas" uma performer. Mas, há alguns pontos outros que tornam o Lemonade um trabalho tão magnífico.
O primeiro sendo que é uma obra multimídia, que entrelaça música, cinema, poesia, marketing e política com elementos autobiográficos da própria Beyoncé. O disco, que é o primeiro álbum conceitual da cantora, utiliza uma traição extraconjugal como ponto de partida para discutir assuntos muito mais robustos, como traumas histórico-sociais, relações raciais, feminismo negro e herança familiar. O seu caráter alegórico é reforçado por um filme que utiliza os estágios do luto como fio condutor.
Como se a concepção artística não fosse impressionante o suficiente, é aqui onde Beyoncé começa o que se tornaria a marca registrada dos seus futuros álbuns: a mescla de gêneros. A história nos é contada também no aspecto sonoro, misturando desde o R&B para as baladas, passando por reggae, country, rock, gospel, soul, e todos os gêneros formativos para Beyoncé.
Agora, o aspecto que mais me encanta no Lemonade, e que é pouquíssimo falado, é como ele é um case de marketing corpulento e absolutamente intricado. Sua estratégia de divulgação é, sim, muito boa e foi muito influente, mas é muito interessante perceber como um evento tão pessoal tornou-se algo tão grande, especialmente porque, parando para pensar bem, Beyoncé não fala tanto assim.
Ela expõe o mínimo possível de uma premissa básica ("meu marido de anos me traiu com uma branca e não vou aceitar isso novamente") e o resto da história são inferências. O que é algo muito interessante, já que nem ela nem a família sai com a imagem desgastada, e ainda deu espaço para a narrativa ser continuada em dois álbuns subsequentes (4:44 e o Everything is Love) e uma turnê conjunta.
Então, o Lemonade é um álbum que cumpre todos os requisitos quando se trata do que é preciso para se criar um álbum icônico, influente e altamente preciso para reinventar a imagem de um artista. É e deve continuar seguindo de modelo para futuros artistas serem artisticamente ambiciosos, explícitos em mensagem, visão e narrativa, e aprenderem a maturar ideias.
Observação: nunca consegui gostar das baladas desse álbum. Não aguento ouvir ela toda corna mansa perdoando jay-z.